Fallecimiento de la filósofa Anna Carolina Regner

Compartimos con ustedes la semblanza académica y personal de la colega Anna Carolina Krebs Pereira Regner, escrita por el profesor Roberto de Andrade Martins (Unifesp), quien fue el primer presidente de AFHIC, en el año 2000, y en la que destaca, entre otras cosas, el importante papel que ella tuvo en la creación de la Asociación.

Um depoimento pessoal sobre a professora Anna Carolina Krebs Pereira Regner (1947-2020) 

Roberto de Andrade Martins (Unifesp)

Conheci a professora Anna Carolina Regner em 1989, em uma ocasião não muito agradável para ela. Nos anos de 1980 a 1983, ela havia realizado estudos de doutorado em Filosofia da Ciência na Universidade da Califórnia, em Berkeley, sob a orientação do professor Paul Feyerabend. Nessa ocasião, já havia iniciado seus estudos a respeito de Darwin. Por dificuldades familiares (duas filhas e um filho pequenos), Anna Carolina não concluiu o doutorado nos Estados Unidos e precisou retomar seu trabalho de docente de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Alguns anos depois de retornar ao Brasil, resolveu tentar completar o seu doutorado. Conseguiu revalidar na Unicamp as disciplinas que havia cursado no exterior e precisava apenas redigir e defender sua tese, para obter o título de doutora junto ao curso de pós-graduação em Lógica e Filosofia da Ciência daquela universidade. Estava avançando em sua pesquisa sobre Darwin, quando foi pressionada para mudar o tema da tese, pois seu orientador passou a exigir que todos os seus estudantes se dedicassem ao estudo de certo filósofo que mais o interessava. A situação ficou bastante difícil para Anna Carolina. 

No impasse que surgiu, o coordenador do curso de pós-graduação em Filosofia veio conversar comigo, para verificar se eu poderia assumir a sua orientação. Há muitos anos eu já me dedicava à história da Biologia e, especialmente, ao estudo de Darwin. Assim, a temática certamente me interessava. Porém, eu já não orientava mais estudantes do curso de pós-graduação em Lógica e Filosofia da Ciência da Unicamp, por causa de um conflito que havia surgido com outro professor daquele curso. Concordei em conversar com Anna Carolina, é claro, mas expliquei a ela que não daria certo transferir a orientação para o meu nome, porque ela teria que enfrentar novas dificuldades no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ela entendeu a situação e, não havendo outra pessoa que pudesse supervisionar seu trabalho lá, desistiu de completar sua pós-graduação na Unicamp. 

Apesar de não poder ajudá-la sob o ponto de vista institucional, ofereci-me para acompanhar sua pesquisa e a estimulei a continuar o trabalho sobre Darwin. A partir de então, passamos a manter um contato frequente e reuniões para discutir o andamento de sua tese. Ela já havia redigido algumas centenas de páginas de anotações e análises a respeito da epistemologia do Origin of Species, mas não sentia que estivesse chegando perto da finalização do trabalho. Sempre que ela podia, ia me visitar na Unicamp para conversarmos sobre sua pesquisa e eu insistia para que ela reduzisse suas expectativas e completasse a tese. Discutimos detalhadamente tudo o que ela já havia produzido e – devo dizer – em muitos pontos nossas interpretações a respeito de Darwin não convergiam. Nenhum de nós conseguia convencer o outro e aceitamos manter as discordâncias, sem que isso perturbasse a colaboração. Aprendi a respeitar o enorme cuidado que ela tinha, analisando frase por frase o Origin of Species, examinando atentamente o uso dos termos epistemológicos nas diversas passagens em que eles apareciam. Nessa época, ainda não existiam os recursos digitais que todos usam atualmente. Ela empregava uma fotocópia da sexta edição do Origin of Species, onde marcava com diferentes cores as ocorrências das expressões relevantes, em cada página. Já perto do final da pesquisa, ela conseguiu ter acesso a uma versão digital da obra de Darwin, o que poderia ter facilitado muito o trabalho – mas ela já havia realizado de forma não digital a análise exaustiva da terminologia empregada no Origin of Species.
Após ter desistido do doutorado da Unicamp, Anna Carolina não se inscreveu em nenhuma outra pós-graduação, mas aceitou minha sugestão de que poderia tentar obter o título de doutorado por defesa direta da tese, como eu próprio havia feito alguns anos antes. Infelizmente, ela não teve apoio por parte do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para isso. No entanto, depois de algumas sondagens, surgiu uma possibilidade através do programa de pós-graduação em Educação de sua universidade. Mas era necessário completar a tese, é claro.
 A essa altura, em 1994, as anotações de Anna Carolina continuavam a crescer, fora de qualquer controle. Eram mais de mil páginas, no formato em que estavam digitadas. Nosso contato esporádico não estava ajudando muito a direcionar a finalização da tese, por isso eu lhe sugeri que ela passasse algumas semanas na Unicamp, trabalhando intensamente para selecionar, fazer cortes, reduzir as ramificações e os desdobramentos quase infinitos, e produzir uma primeira versão do trabalho – com início, meio e fim. Ela conseguiu se organizar para ficar em Campinas por um tempo e eu obtive a autorização do Departamento de Raios Cósmicos e Cronologia (no qual eu trabalhava) para que ela pudesse utilizar uma sala exclusiva, durante esse período. Ela trabalhou incansavelmente, durante esse período. Todos os dias, conversávamos sobre os cortes e a nova estrutura do trabalho. Quando retornou para Porto Alegre, tinha uma primeira versão pronta de sua tese. 

Depois disso, o trabalho correu rapidamente. Ela me enviava as versões revistas de cada capítulo, trocávamos mensagens sobre o trabalho e em poucos meses estava tudo pronto. Encarreguei-me de conseguir uma pessoa para rever todo o texto – um funcionário da Editora da Unicamp que fazia esse tipo de serviço fora de expediente. Eu próprio formatei a tese, reduzindo as margens, deixando espaço simples entre as linhas, utilizando um papel de tamanho ofício (formato maior do que A4) e sugeri que ela fizesse a impressão nas duas faces do papel, para que a tese tivesse uma aparência menos volumosa e não assustasse a banca. 

Quando tudo ficou pronto, no início de 1995, eu estava me preparando para viajar para o exterior, pois ia passar um ano realizando estágio de pós-doutoramento na Universidade de Cambridge. Já estava na Inglaterra quando Anna Carolina recebeu a confirmação de que poderia defender sua tese e obter o título de doutora, sob a supervisão do professor Carlos Roberto Velho Cirne Lima. Ela me consultou, perguntando se eu queria que a defesa fosse realizada depois de meu regresso ao Brasil. Ponderei que ela não devia perder tempo e que minha presença na banca não era importante. Assim, depois de toda essa série de dificuldades, ela finalmente conseguiu realizar a defesa e obter o título de doutorado. Fiquei muito contente por ter podido ajudá-la a superar essa etapa. Essa colaboração estabeleceu uma amizade e admiração por sua capacidade e integridade, que continuou a se ampliar nos anos seguintes. 

Anna Carolina foi uma pessoa forte, decidida, que não se deixava vencer pelos problemas que surgiam à sua frente. Mesmo após obter sua titulação, continuou a encontrar obstáculos e limitações no Departamento de Filosofia da URFGS, onde não foi autorizada a orientar estudantes de pós-graduação. Apesar dessa oposição de seus próprios colegas, Anna Carolina conseguiu se firmar, sob o ponto de vista institucional. Conhecida e respeitada por professores de diversos institutos e departamentos, ela começou a desenvolver atividades interdisciplinares que se consolidaram em um grupo de pesquisas que, inicialmente, pertencia ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porém, em 1996, ele se transformou no Grupo Interdisciplinar de Filosofia e História das Ciências (GIFHC), sob sua coordenação inicial, ficando vinculado ao Instituto Latino Americano de Estudos Avançados da UFRGS. No mesmo ano, também por sua iniciativa, o GIFHC criou a revista Episteme: Filosofia e História das Ciências em Revista, da qual foi a primeira editora. No ano seguinte, o GIFHC começou a promover vários eventos, com a participação de convidados do exterior; e em 1998 organizou na UFRGS o congresso Filosofia e História das Ciências: I Encontro do Cone Sul, reunindo pela primeira vez um grande número de brasileiros, argentinos e de outros países da América Latina, que pesquisavam sobre história e filosofia das ciências e que, anteriormente, tinham pouco contato entre si. Para a realização de todas essas atividades, Anna Carolina contava com uma excelente equipe, que se dedicava de forma harmoniosa e intensa à organização dos eventos, publicações, reuniões etc. Todos nós que participávamos dessas iniciativas ficávamos admirados com a liderança e eficiência de Anna Carolina.

Logo após o Encontro de 1998, o intercâmbio entre pesquisadores do Cone Sul aumentou significativamente. Eu próprio, que nunca havia participado de nenhum evento na Argentina, estive pouco depois em Bariloche e, em seguida, em Córdoba. Da mesma forma, aumentou a vinda de pesquisadores da Argentina e de outros países vizinhos para o Brasil. Dando continuidade à iniciativa do GIFHC, em 2000 foi realizado o II Encontro de Filosofia e História das Ciências do Cone Sul, em Buenos Aires, sob a coordenação do professor Pablo Lorenzano, da Universidade de Quilmes. Nessa ocasião, foi criada informalmente a Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), sendo escolhida uma Diretoria Provisória, ocorrendo depois de alguns meses a aprovação dos Estatutos da AFHIC e a eleição da primeira Diretoria regular. Anna Carolina teve um papel central na fundação da AFHIC, mas preferiu não ser a primeira Presidente, embora tal escolha fosse a mais natural, na ocasião. Com seu apoio, eu próprio fui eleito Presidente. 

Em 2002, Anna Carolina se aposentou da UFRGS e, no mesmo ano, foi contratada e se tornou professora titular de Filosofia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Não pertencendo mais aos quadros da UFRGS, coube a outros docentes daquela Universidade dar continuidade ao GIFHC e à revista Episteme. A partir dessa mudança de instituição, a atividade da professora Anna Carolina passou a ser mais individual – como professora, orientadora e pesquisadora – embora continuasse a ser uma figura central na Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), da qual foi Presidente em 2009-2011. Teve também intensa participação na criação da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), sendo um de seus fundadores, participando de seus Encontros e auxiliando a Diretoria como parte do Conselho dessa associação. 

Estivemos juntos em algumas batalhas que foram perdidas, como o projeto de memória da ciência nacional liderado pelo professor Manuel Domingos Neto, então vice-presidente do CNPq; o esforço pela criação de uma área específica de história e filosofia das ciências junto aos órgãos de fomento à pesquisa; a tentativa de redirecionar a Sociedade Brasileira de História da Ciência em relação a esses e outros caminhos para desenvolvimento da área em nosso país, em 2004; a proposta de homenagear Darwin, em 2009, dentro e fora do Brasil, através do “Ano Internacional de Darwin”; e várias outras atividades que não tiveram grande sucesso mas nunca nos desanimaram. Anna Carolina era uma lutadora, sempre entusiasmada pelo avanço da história e da filosofia da ciência em nosso país.  

Durante mais de duas décadas, tive o prazer de manter contatos frequentes com Anna Carolina, principalmente quando nos encontrávamos, quase todos os anos, em congressos realizados no Brasil ou no exterior. Jamais tentamos escrever qualquer artigo de pesquisa em colaboração, acompanhando, no entanto, os trabalhos apresentados e publicados por cada um de nós. Nossas conversas giravam, quase exclusivamente, em torno de história e filosofia da ciência e das atividades realizadas nessas áreas no Brasil e nos países vizinhos. Pergunto-me agora que outros interesses ela tinha, além dessas áreas de pesquisa e de sua família – e confesso que não sei. Minha impressão subjetiva é a de que o centro de sua vida era o estudo e o ensino de história e filosofia da ciência – atividades às quais ela se dedicava com grande energia, competência e prazer. Gostava também de organizar eventos, grupos e publicações, mas certamente isso não era motivado por vaidade ou qualquer desejo de adquirir uma posição de destaque, e sim pela vontade de compartilhar com muitas pessoas o seu amor pela pesquisa e pelo conhecimento. Espero que o exemplo de dedicação e competência dado por Anna Carolina se torne mais conhecido, inspire e seja seguido por outras pessoas, por muito tempo.

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